Pais de vítimas de queimadura requerem assistência psicológica

March 9, 2016

Estudo confirma que cuidadores influenciam no processo de reabilitação após trauma vivenciado pela criança e indica que queimadura também causa sequelas na família

por Vivian Palmeira - Da Secretaria de Comunicação da UnB

 

“Me sinto um pouco culpada”, diz a mãe de uma criança que teve 20% do corpo queimado enquanto dava de mamar para o caçula da família. O incidente aconteceu durante uma brincadeira em cima da cama. “Meu irmão foi fazer fogueira e, quando foi pegar o papel, ele grudou no colchão que eu estava”, conta o garoto, identificado como C1 no estudo A relação criança queimada e cuidador e a vivência da queimadura. Os relatos foram coletados pela psicóloga Mariana Guedes Coelho, durante realização de pesquisa de mestrado no Programa de Pós-graduação em Processos de Desenvolvimento Humano e Saúde, do Instituto de Psicologia (IP).

 

De acordo com a pesquisadora, o jovem C1 faz parte de uma realidade alarmante. Dados do Ministério da Saúde revelam que as queimaduras estão entre os acidentes domésticos mais recorrentes em crianças até 14 anos e são a quarta causa de morte infantil. A situação já é um problema de saúde pública e o impacto que a queimadura causa numa criança vai além da questão estética; acarreta danos emocionais e sociais, influenciando a relação de toda a família.

 

Um dos impactos é percebido no processo de reinserção social da criança vítima de queimadura, principalmente na aceitação da imagem corporal da criança queimada. A pesquisadora conta que “o cuidador sofre com a perda do filho antes perfeito e agora desfigurado”. Segundo Mariana, uma das mães entrevistadas confidenciou que gostaria que a filha tivesse a oportunidade de um dia reconstruir o rosto. “Para ela não faz diferença, mas para mim, eu vou te dizer a verdade, me incomoda a aparência dela”, assumiu.

Essa preocupação dos pais com a imagem do filho pôde ser notada no relato de uma das crianças, que passou a ter dificuldade de relacionamento com alguns familiares após o acidente. “Com meu pai, minha mãe e irmãs está tudo bem, mas meus primos não se acostumaram comigo”, contou a criança, que teve parte do rosto e peito queimados durante um churrasco.

 

O estudo confirmou também que os sentimentos de culpa, medo e a falta de informações sobre os cuidados necessários no tratamento, além da necessidade de lidar com a dor do filho, influenciam na relação entre o cuidador e a criança queimada. “Os sentimentos de culpa ocasionam mudanças na forma de os pais se relacionarem com as crianças, apresentando comportamentos como superproteção e medidas controladoras e restritivas”, diz a psicóloga.

 

Mariana Guedes constatou a necessidade de dar mais atenção aos cuidadores de pacientes queimados. “[...] o cuidador, além de compartilhar os momentos dolorosos [...] também se sente desamparado e vive o medo iminente da morte de seu filho, configurando assim uma desorganização psíquica que exige acompanhamento”, destaca. A pesquisadora espera que seu trabalho encoraje discussões entre pesquisadores, profissionais de saúde, além das equipes multiprofissionais de Unidades de Queimados, com o objetivo de integrar cuidadores e familiares "como pacientes, e não como meros acompanhantes”.

 

Emília Silberstein/UnB Agência

 

Mariana Guedes espera que seu trabalho encoraje discussões para integrar

cuidadores e familiares "como pacientes, e não como meros acompanhantes”

 

METODOLOGIA - A pesquisadora Mariana Guedes estudou o caso de nove crianças entre seis e 12 anos, vítimas de queimadura, a maioria por contato com fogo. Entrevistou as crianças e seus cuidadores durante atendimento ambulatorial na Unidade de Queimados do Hospital Regional da Asa Norte – HRAN, na fase de reabilitação. "A gente queria saber como elas já estavam lidando com as seqüelas da queimadura nesse momento de reinserção escolar e social", conta Mariana. A pesquisadora também analisou os prontuários dos pacientes queimados e avaliou a percepção das crianças sobre sua imagem corporal através de desenhos. Além disso, aplicado teste para avaliação dos sintomas de estresse pós-traumático (TEPT) em todos os participantes.

 

Para a pesquisadora ainda é preciso investir em campanhas de prevenção contra queimadura. “A única coisa que poderia evitar os transtornos que causam a queimadura é a prevenção”, ressalta. Ela conta que infelizmente o maior número de crianças queimadas só sofreu o acidente porque estavam sozinhas, sem o acompanhamento direto de um adulto. “Podiam estar sob a supervisão da mãe, do pai, mas todos estavam fazendo alguma coisa e a criança estava só”, revela a psicóloga. “As condições às vezes levam a essa falta de cuidado com a criança, mas a questão da prevenção é fundamental, porque depois que queimou não tem jeito”, completa.

 

Fonte: www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=8387

 

 

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